O que o tempo fez comigo?


Um excelente texto que dever ser lido por todos para que possam fazer uma reflexão sobre si mesmo. Me encontrei nesse texto e pude perceber de fato o que o tempo faz conosco.

Hoje me sento em frente ao espelho e contemplo as marcas que adquiri lentamente, a cada sorriso, a cada choro, a cada instante vivido. Não vejo mais o rosto de uma criança, nem o de um adolescente, mas também não vejo o de um velho. Vejo simplesmente a mim, sem uma idade, sem uma feição etária, apenas a minha figura, mutável – inevitavelmente mutável. 

Quando vigio meus  traços no espelho percebo que inútil seria buscar o rosto de outrora, pois nós sempre temos o rosto de agora. Só as fotografias guardam tão específico momento. Nossa memória tenta embalde manter vivas as imagens que já possuímos, mas o que nos resta é o rosto de agora, as feições do hoje, o próprio hoje estampado em olhos e lábios e nariz e rugas e marcas e tudo.

Mas fora o aspecto físico, retrato da vida vivida de fato, reflito os atos de hoje e os de antes. E tudo é tão distinto também porque o ser humano nunca age da mesma forma. Na verdade, o ser humano é sempre outro a cada instante, porque a cada instante nós adquirimos ou perdermos algo, o que inevitavelmente nos faz outro. Hoje sou outro, não sou mais o de outrora.

O que o tempo fez comigo? Pergunto-me mediante a turbulência da vida que passa displicentemente sob seus olhos. As respostas vêm-me em embaraçoso vendaval de vivências, de aprendizados, de erros, de tudo que me faz esse hoje. O tempo me fez aprender a dosar as paixões, a sopesar os medos, as angústias, as ansiedades. Permitiu-me ele, em sua quase infinita bondade, aprender com os erros para não repeti-los, sem, contudo, impedir-me de errar mais. Errar é tão fundamental quanto acertar. Ensinou-me a enxergar melhor as pessoas, entendê-las e compreendê-las também; ensinou-me também a calar, porque às vezes é preciso deixar o silêncio responder.

O tempo me fez forte, mas não apagou as minhas fragilidades – talvez algumas. Ser frágil também é necessário, faz-me também forte. O tempo fez-me querer ficar só em vários momentos, mas não me fez auto-suficiente para eu querer ser sempre só. Talvez me tenha ele feito aprender a viver só, com a minha solidão, que é quando eu reflito sobre a companhia das pessoas. O tempo ajudou-me a aceitar as perdas, mas a lutar para não perder. Ele me fez correr atrás do que me desperta interesse, mas me ensinou a não viver de esperanças, mesmo sem tê-las matado em mim.

O tempo só fez com que eu fosse escrevendo as páginas de mim mesmo, como seu fosse – e talvez eu seja – um livro em processo de criação. Todos  somos isso. Um livro sem fim definido, apenas com um fim sabido ser fim. Por isso o tempo me ensinou que às vezes precisamos ser personagens para deixarmos de ser nós mesmos e paradoxalmente sermos ainda mais nós mesmos. O tempo me ensinou a fingir sem perder a ternura da verdade; a sorrir sem perder o milagre da lágrima; a gritar sem perder a melodia do silêncio.


O que o tempo fez comigo? 
O tempo apenas fez-me, mais nada. 
Mais nada.

Professor Sérgio Santos
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