Mundo do Trabalho

Uma das boas notícias da semana já tem hora e data para ser divulgada: na quinta-feira, o IBGE vai anunciar a taxa de desemprego de dezembro, que deve ficar em torno de 5%. Em novembro, já havia ficado abaixo de 6%. O mercado de trabalho enfrenta vários desafios: a desigualdade está nas estatísticas, as empresas falam em apagão de mão de obra. Mas este é definitivamente um bom momento do mercado.

Com experiência em vendas e nível médio completo, Danielle Marinho, de 29 anos, conseguiu uma vaga temporária numa loja de roupas em dezembro. No dia seguinte, já estava efetivada. A contratação foi rápida demais, ela admite, mas não chegou a impressioná-la. Acha que o comércio está numa fase muita boa, abrindo oportunidades, porque “tem muita gente comprando.” A história se repete com Francisca Luzirene dos Santos, de 24 anos, que paga aluguel com o salário de vendedora, vaga conquistada depois de quatro meses desempregada. Agora, planeja também usar parte do rendimento para pagar a faculdade de administração.

Danielle e Francisca vivem na prática o que mostram as estatísticas: o comércio é um dos setores que estão puxando a melhora dos indicadores do mercado de trabalho. Ajudou, em novembro, a derrubar a taxa de desemprego para 5,7%, a menor marca desde 2002, quando teve início a série do IBGE. O dado de dezembro será ainda menor pelas contratações temporárias do comércio; em janeiro, no entanto, a tendência é de alta do desemprego pelo fim desses mesmos contratos. Mas muitos podem transformar o temporário em permanente pelo ritmo de crescimento da economia.
Os economistas falam em pleno emprego, mas Cimar Azeredo, gerente da PME, do IBGE, lembra que as diferenças regionais são muito grandes. Em Salvador, por exemplo, uma das seis regiões metropolitanas pesquisadas, o desemprego fechou em 9,4% em novembro. Na outra ponta está Porto Alegre, que registrou apenas 3,7%.
Os bons números foram comemorados, porque pela primeira vez a taxa de desocupação ficou abaixo de dois dígitos em todos os locais pesquisados. Mas os jovens de 18 a 24 anos são ainda os que mais sofrem para encontrar uma vaga. Em novembro, a taxa de desemprego para essa faixa etária ficou em 12,5%. Em Salvador, o número é absurdo: 22,7%. São mais afetados, segundo os especialistas, porque não têm muita experiência, às vezes nem qualificação, e poucos jovens se aventuram no empreendedorismo.
A tendência tem sido a de criação de empregos formais. Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas, o percentual de informais caiu de 34,3% em novembro de 2002 para 30,1% no mesmo mês de 2010. Mesmo assim, ainda há quase 7 milhões de pessoas trabalhando sem carteira nessas regiões.
— Ainda somos um país com grande número de informais, mas o avanço da formalização foi fantástico. Os trabalhadores têm garantias e passam a contribuir para a Previdência, tirando da sociedade esse peso no futuro — diz Cimar Azeredo.
O lado obscuro é que, apesar de exibir uma taxa de desemprego mais baixa do que a de muitos países desenvolvidos, esse mercado continua tratando de forma diferente mulheres e negros. Quase não houve avanços nos últimos anos. Em média, o rendimento delas representa 73% do recebido pelos homens, de acordo com a última pesquisa. E não adianta ter mais anos de estudo, porque a desigualdade é ainda maior nas faixas de maior escolaridade. A cor da pele também expõe a desigualdade: o rendimento médio dos negros, em março do ano passado, era de 51% do dos brancos. Como se vê, ainda há muito a fazer e não são poucos os desafios que a presidente Dilma Rousseff tem pela frente.
O baixo nível de escolaridade — em torno de seis anos de estudo, em média, segundo o economista José Márcio Camargo, da PUC-Rio — e a pouca qualificação da força de trabalho afetam a produtividade. Outro lado negativo do mercado, segundo Camargo, é a alta rotatividade.
— Para o trabalhador, é mais vantajoso rodar do que continuar na empresa e tentar subir na carreira. Sabendo disso, as empresas diminuem o investimento em qualificação, reforçando esse processo de produtividade baixa — explica o economista.
E se o país quiser crescer de forma sustentada nos próximos anos precisa desenvolver estratégias para educar e qualificar trabalhadores em cursos técnicos — oferecidos pelo Estado e por empresas — para atender às demandas do setor produtivo no médio e longo prazo. Esse é o grande desafio, na opinião do especialista Claudio Dedecca, professor da Unicamp. Para ele, além de capacitá-los, é preciso convencer os jovens a optar por ocupações manuais, valorizá-las novamente, porque são elas que estão em falta no mercado. Ele se refere a funções na construção civil, nos setores elétrico, metal-mecânico e naval, que nos próximos anos receberão mais investimentos.
Para 2011, as áreas mais promissoras, segundo a consultora de RH Carmen Vieira de Mello, do Grupo Foco, estão relacionadas a setores que lucrarão com os eventos previstos para 2014 e 2016. Profissionais dos ramos de construção civil, tecnologia, varejo, energia, hotelaria e logística, por exemplo, terão mais chances.
Mas a contradição continua: as empresas falam em apagão de talentos, e muita gente se sente barrada no mercado, como já escrevemos aqui. Os processos de seleção precisam mudar e os profissionais precisam encontrar novas formas de prospectar o mercado. O país não pode desperdiçar ninguém.

Míriam Leitão, Alvaro Gribel e Valéria Maniero
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