Marina Silva no PV é boa novidade na sucessão


A possibilidade de a senadora Marina Silva se candidatar à Presidência da República pelo PV é a única novidade do debate sucessório que desperta esperança de alguma inovação na política brasileira. Tem sido desalentador constatar a pobreza de ideias de nossos principais presidenciáveis.

Guardadas as devidas proporções, Marina pode dar ao Brasil um choque positivo semelhante ao de Barack Obama na política americana. Sua eventual candidatura obrigaria os partidos "favoritos" a vencer a eleição presidencial de 2010 a modernizar discursos. E não convém descartar a força de um fato novo em tempos de descrédito da classe política.

Potenciais candidatos à Presidência, José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Ciro Gomes (PSB), Aécio Neves (PSDB), Heloísa Helena (PSOL) ignoram a agenda ambiental. É triste constatar isso. No atual padrão da política brasileira, eles estão entre os melhores quadros.

Serra e Dilma são "desenvolvimentistas", seja lá o que isso signifique. Parece que são preocupados com o crescimento da economia, com obras de infraestrutura, com geração de emprego. Ótimo. Ainda bem. Só faltava serem contra.

Não se ouviu nos últimos tempos uma ideia inovadora do governador de Minas. O jovem Aécio é um retrato do político tradicional. O PSDB liga Lula a Sarney na crise do Senado, mas o tucano mineiro trabalha nos bastidores a favor do presidente do Senado.

Em Belo Horizonte, Aécio decidiu criar um grande centro administrativo. É uma tentativa anacrônica de invocar JK contratando um projeto de Oscar Niemeyer para concentrar num só lugar o governo de Minas e suas secretarias. No mundo inteiro, busca-se revalorizar o centro das grandes cidades. O poder público tem papel fundamental nisso, mas Aécio preferiu fazer sua obra faraônica no caminho do ainda distante aeroporto de Confins. Os gastos reais estouraram a previsão.

Ciro Gomes, ex-ministro e deputado federal, dedicou as últimas semanas a alimentar uma candidatura artificial ao governo de São Paulo. Também jovem político, está caindo numa armadilha de velhas raposas.

Heloisa Helena apareceu na TV, no programa do PSOL. Mais do mesmo: só haveria pilantras em Brasília. Discurso moralista. E uma visão econômica de dar medo.

Numa terra arrasada assim, será um erro ignorar a força de eventual candidatura de Marina Silva. Por ora, tucanos tratam a possibilidade com incrível amadorismo. O raciocínio é que Marina prejudicaria mais Dilma do que Serra. Aécio chegou a dizer que, no segundo turno, Marina estaria ao lado do PSDB.

Os tucanos subestimam a inteligência de Marina, que deu um nó em Lula ao deixar o governo. Ela pediu demissão e obrigou o governo a frear um ataque ao meio ambiente em nome de obras de infraestrutura.

Os petistas estão atônitos com o convite do PV a Marina. Recorrem a apelos sentimentais. Acham que uma conversa com Lula poderá resolver. Parece que Marina já está com a decisão tomada. Tende a deixar o PT pelo PV.

A princípio, claro que Dilma perderia mais com a eventual candidatura de Marina. Mas o PSDB cometerá um erro se tratar essa possibilidade como linha auxiliar para derrotar o governo nas eleições de outubro do ano que vem. É óbvio que o PV, um partido pequeno, teria enorme dificuldade para arrumar recursos financeiros e tempo de TV para vender sua candidata.

Ou seja, há obstáculos para que uma eventual candidatura de Marina consiga ficar de pé a ponto de ter chance real de ganhar.

No entanto, uma postulação presidencial que trate o desenvolvimento econômico como parceiro e não como empecilho pode gerar uma onda verde realista. A capacidade de mobilização via internet contrabalançaria a falta de dinheiro e de tempo no horário eleitoral gratuito. A bandeira ambiental tem apelo suficiente para seduzir jovens que só ouvem falar da crise do Senado.

Aos olhos de hoje, seria muito difícil Marina vencer. Mas, no mínimo, sua candidatura faria um estrago danado na envelhecida política brasileira e um bem ao debate público. Na hipótese de surpresa, pode virar uma terceira via no duelo fratricida entre PT e PSDB.

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Anjos verdes?

A intenção de uma candidatura ao Palácio do Planalto com eixo ambiental é interessante. Vender uma migração do PT para o PV como tentativa de elevar o padrão moral, digamos assim, soa a engodo.

Convém lembrar a Marina que o PV está cheio de políticos fisiológicos e com processos judiciais. O deputado federal Zequinha Sarney (MA), filho de José Sarney, é um dos caciques da legenda. A prestação das contas eleitorais do PV não difere muito das de outras siglas. Teve empresa fantasma dando para o partido justificar suas contas.

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Lucidez à fórceps

O senador e tucano Arthur Virgílio (AM) diz que o PSDB e o PT precisam se entender para resolver os grandes problemas do país porque seriam pequenas as diferenças entre os dois partidos. O petista Aloizio Mercadante (PT) sinalizou que não deseja endossar os ataques do PMDB a Virgílio.

Pena que flertes dessa natureza só apareçam quando tucanos e petistas se sentem acuados politicamente.

Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos.
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