Um pouco de Galvez

Visitando o Blog do Altino Machado, encontrei essa matéria falando sobre Galvez que me chamou muito atenção e que com certeza para os internautas que vísitam meu blog, servirá para conhecer mais um pouco sobre o mesmo e a bonita História do Acre Estado Independente.


Biógrafo de Galvez identifica sua obra em minissérie da TV Globo


O jornalista, diretor de documentários e escritor espanhol Alfonso Domingo, 53, é autor da novela “La Estrella Solitaria” (Algaida Literaria, 448 páginas), que revelou ao país dele a aventura de seu compatriota Luis Galvez Rodrigues de Arias, o aventureiro que proclamou, em 14 de julho de 1899, o Estado Independente do Acre e pediu o reconhecimento das nações
Ou, conforme escreveu Javier Macua na apresentação do livro, em 2003, Domingo revela “a história de uma bala perdida que desenhou um país no meio da selva e um homem politicamente incorreto para seu tempo”.

Galvez é retratado por Domingo como um personagem real que organizou ministérios, criou escolas, hospitais, um exército, corpo de bombeiros . Ele concebeu um país moderno para a época, com preocupações sociais, ambientais e urbanísticas. Foi juiz, emitiu selos de correios, sendo um deles entre os mais cobiçados pelos filatelistas, além de ter idealizado a atual bandeira do Acre - uma estrela vermelha solitária destacando-se no verde e amarelo da insígnia brasileira.

Galvez chegou a proibir no Acre o casamento com jovens menores de dezesseis anos, que era costume numa região onde a companhia feminina era privilégio de poucos. O país Acre, que surgiu cercado pela floresta exuberante, no barranco do rio, era habitado por 13 mil almas.

Galvez era jornalista, espadachim e mulherengo. Nasceu em 1864 e trocou Cádiz por Buenos Aires. Passou pelo Rio de Janeiro e Manaus, onde dirigiu um cabaré no apogeu da exploração da borracha. No Amazonas, conheceu Guillermo Uhtoff e ambos decidiram fundar o Estado Independente do Acre.

Quando o Acre ainda era possessão da Bolívia, Galvez trabalhava como jornalista no Amazonas e denunciou a existência do Bolivian Syndicate - um acordo secreto entre o país boliviano e os Estados Unidos, que cobiçavam a valiosa exploração de látex.

- O retrato de Galvez que surgiu era o de um homem capaz, com grandes idéias, um homem que queria e podia levantar um país. Sua epopéia me parece maravilhosa, porque, ademais, não tirou um único rendimento econômico, ao contrário, quase se arruinou. Era uma espécie de Lord Jim reivindicando seu nome. Uma grande figura - disse o escritor com exclusividade ao Blog da Amazônia.

O Estado Independente durou apenas nove meses e Galvez acabou expulso do Acre. Regressou para a Espanha. Enfermo e sozinho, morreu em Madrid, em 1935. Antes, porém, em 1902, numa entrevista ao Diário de Buenos Aires, Galvez deixou uma previsão como testamento político:

- Os ianques têm uma mão sobre o coração da América do Sul. Porém não se vê. E quando se vê será tarde: o polvo haverá multiplicado seus tentáculos e poderá dar impunemente a pressão que lhe convier às suas insaciáveis e enormes conveniências.

Domingo conheceu melhor a aventura de Galvez ao percorrer o Acre, em 1992, para realizar o documentário “Acre, la Amazonía olvidada” sobre a terra de Chico Mendes. Passou cinco anos pesquisando a vida do compatriota, inclusive o arquivo - apenas dois caixões - que está em Pernambuco. Não existem mais parentes de Galvez na Espanha, mas de Uhtoff, sim. E o escritor não esconde a afeição por esse personagem, segundo ele, o Sancho Pança da história, o que estava por trás do primeiro estadista do Acre e autor dos desenhos dos selos do Estado Independente, os primeiros de um país.

- Um personagem fascinante, pícaro, aventureiro e que colecionava borboletas. Há família sua em Cádiz e existem fotos dele, um personagem que dilapidou sua fortuna familiar. Ele sim, esteve no corpo diplomático espanhol – o demitiram por dívidas de jogo em Viena - e dali saiu a lenda do Galvez diplomático - acrescenta Domingo.

“La Estrella Solitaria”, publicado há cinco anos, serviu para a novelista Glória Perez, da Rede Globo, compor um personagem mais real na minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”, onde o aventureiro espanhol apareceu com sua amante Maria Alonso, dançarina da Companhia Zarzuela, com quem viajou para o Acre. Domingo não viu a minissérie na íntegra, mas disse ter ficado surpreso com a presença de Maria Alonso, uma personagem que afirma ser ficcional em sua obra.

- Só pude ver pela internet algumas cenas e vejo que, efetivamente, é minha Maria Alonso. O que posso fazer? Em princípio, certificar-me de que isso é assim, vendo a totalidade dos capítulos da série do Acre, e logo depois demonstrar que esse personagem é invenção minha. Não quero processar nem meter-me em pleitos jurídicos, mas gostaria que o meu livro fosse publicado no Brasil para que todos pudessem ver de onde se originou.



“La Estrella Solitaria”, recebeu o Prêmio Ciudad de Salamanca. Foi editado por Algaida, que tem os direitos durante uma série de anos.

- São eles os que, em qualquer caso, deveriam empreender ações judiciais se as acreditam oportunas e com o meu consentimento - assinala o escritor.

Porém, a novelista Glória Perez o contesta e pediu à reportagem o endereço eletrônico de Domingo para contatá-lo e enviar os DVDs da minissérie.

- Consultei o Alfonso Domingo para saber se Maria Alonso era personagem histórico, para poder manter o nome. Era. Por isso mantive. Mudei o caráter dela. O certo é que o trabalho do Alfonso foi fundamental para que eu pudesse traçar um Galvez mais perto do real, uma vez que ninguém nesse país pesquisou sobre ele. Nunca escondi isso. Falei exaustivamente dele em todas as entrevistas. O livro está citado nos créditos da minissérie e não foi por falta de sugestão minha que não o lançaram no Brasil. Muitas vezes declarei o quanto seria importante para o Acre que se fizesse esse lançamento - afirma a novelista acreana.

E Galvez segue exercendo seu fascínio sobre os acreanos. Em breve, quando o prédio da Assembléia Legislativa do Acre for reaberto, após as obras de uma reforma, o público encontrará uma estátua de Galvez na entrada, assinada por Christina Motta, a mesma artista que fez a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, e do poeta Juvenal Antunes, em Rio Branco (AC), que é um outro ícone dos aventureiros que povoaram a região acreana.

- Galvez foi o primeiro legislador do Acre - argumenta o deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), presidente do Legislativo.

De Madri, onde reside, o escritor Alfonso Domingo conversou com o Blog da Amazônia.

Quando começou o seu contato com o Acre?

Em 1992. Creio que foi quando li o livro “Galvez, o imperador do Acre”, do Márcio Souza. Depois me encontrei na vida com o brasileiro Dácio Mingrone, que vivera no Acre, e decidimos fazer uma série documental sobre a terra de Chico Mendes. Viajamos em 1995 e fizemos o documentário.

Naquele ano vocês enfrentaram problemas com a Polícia Federal e o que há de relevante no documentário?

Eram os tempos do governador Orleir Cameli, aquele que enfrentava 17 processos, dentre eles, por contrabando, saque de madeira de áreas indígenas. Tanto para ele como para a classe que governava o Estado, não fazia a menor graça que fôssemos ao Acre, víssemos a extração ilegal de madeira, falássemos com os seringueiros, com as cooperativas, com os indígenas. Aproveitando uma brecha legal, porque nossos vistos estavam adequados, e até a importação temporária da câmara, quiseram ver o material e o que havíamos filmado. Neguei-me e nesse dia escondemos as fitas gravadas. Ali estavam entrevistados desde os herdeiros de Chico Mendes até o padre Paolino Baldasari, de Sena Madureira. Enfim, tínhamos falado com muita gente, dentre as quais, o bispo Moacir Grechi e o prefeito de Rio Branco, Jorge Viana, quem, por sinal, nos avisou, lealmente, que a Polícia Federal iria a nosso encalço. A série se fez e se chama “Acre, la Amazonía olvidada” [Acre, a Amazônia esquecida], três capítulos de uma hora, que Dácio e eu fizemos. Recebemos vários prêmios nacionais e internacionais e a série foi transmitida na França e na Espanha. Também entrevistamos fazendeiros. Não era um trabalho parcial, quisemos que falassem todos os envolvidos, mas reconstruímos o crime de Chico Mendes e falamos do complô que houve para matá-lo.

E quando Luis Galvez Rodrigues de Arias entra em sua vida ou você na vida dele?


Era isso que ia comentar. Ainda que já conhecesse a figura de Galvez por meio do Márcio Souza, foi ao chegar no Acre, especialmente a Porto Acre, a antiga Puerto Alonso, quando percebi que a sua história não estava bem contada. Um amigo me deu os dois volumes de “Formação Histórica do Acre”, do Leandro Tocantins, e bebi, absorto, a história de Galvez. Decidi que era um dos heróis literários da minha vida e dediquei quase cinco anos a pesquisar a sua figura. Em minha segunda viagem, entrevistei a Tocantins, no Rio, e levei-lhe a certidão de nascimento de Galvez, que havia encontrado no Banco de España, de onde fora demitido por falsificar um cheque. A história se tornava interessante. Mas meu retrato de Galvez diferia bastante do bêbado e do crápula que desenha Márcio Souza, a quem também conheço e entrevistei, precisamente para a série do Acre. O retrato de Galvez que surgiu era o de um homem capaz, com grandes idéias, um homem que queria e podia levantar um país. Sua epopéia me parece maravilhosa, porque, ademais, não tirou um único rendimento econômico, ao contrário, quase se arruinou. Era uma espécie de Lord Jim reivindicando seu nome. Uma grande figura.

Ainda existem familiares de Galvez na Espanha?

Não existem, em princípio, familiares de Galvez, ou, se os há, são muito distantes. Ele teve vários irmãos, mas só um teve descendência, em Cádiz. Era um marinheiro que apenas teve contato com ele, porque quando a família se mudou para Madri, ele ficou em Cádiz. De quem, sim, existem familiares, e têm uma história muito boa, é de Guillermo Uthoff, o Sancho Pança da história, o que estava por trás de Galvez, seu amigo, que fez os desenhos para os selos do Estado Independente do Acre, os primeiros de um país. Um personagem fascinante, pícaro, aventureiro e que colecionava borboletas. Há família sua em Cádiz e existem fotos dele, um personagem que dilapidou sua fortuna familiar. Ele sim, esteve no corpo diplomático espanhol - o demitiram por dívidas de jogo em Viena - e dali saiu a lenda do Galvez diplomático etc. Toda essa história está relatada em “La Estrella Solitaria”, na qual conto as peripécias de Galvez e Utohff e interpreto aos personagens, tão presentes como a selva acreana e os homens que trabalhavam nela, dentre eles, alguns galegos, por sinal.

Márcio Souza foi injusto com a história e com o personagem ao escrever “Galvez, imperador do Acre”?

Bom, ele escreveu a sua novela, que quer mostrar a loucura de Manaus e da Amazônia naquela época. Cria um personagem delirante, mas, em sua novela, em seu livro, o escritor tem direito de fabular quando não tem dados, ainda que seja de um personagem histórico. O que eu fiz foi uma pesquisa, averigüei tudo o que foi possível sobre Gálvez, e escrevi um livro com esses novos dados e com a minha nova interpretação. Minha única objeção ao Márcio, talvez porque ele não foi ver a documentação que existe em Pernambuco, foi fazê-lo imperador de um país, quando Galvez era um fervoroso republicano, um bom democrata e um dos primeiros antiimperialistas. De fato, graças a Galvez, talvez o Acre hoje não seja ianque.

Tive o prazer de indicar “La Estrella Solitaria” à novelista Glória Perez, da Rede Globo, que usou o livro para compor a minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”. Você já viu a minissérie ?
Bom, chegamos a um ponto delicado. Glória pôde ler “La Estrella Solitaria” porque a recebeu de Betina, uma amiga sua que eu conheci no Festival de San Diego, na Califórnia. Ela estava nesse momento preparando a série para a Globo, e me perguntou, por correio, uma série de coisas sobre Galvez e a sua história. Disse-lhe que a versão do livro tinha seus direitos, mas insistiu que iam se abreviar fatos históricos. Logo me perguntou insistentemente sobre um dos personagens que apareciam no livro, Maria Alonso, a amante de Galvez. Eu lhe respondi que existira uma cantora assim, mas que meu personagem era pura invenção, ainda que me baseasse em outros fatos, como a Companhia de Zarzuela que acompanha Galvez em sua viagem ao Acre. Quando me disseram que a série tinha ido ao ar e um bom amigo de Manaus me disse de Maria Alonso, a verdade é que me surpreendeu muito. Só pude ver pela internet algumas cenas e vejo que, efetivamente, é minha Maria Alonso. O que posso fazer? Em princípio, certificar-me de que isso é assim, vendo a totalidade dos capítulos da série do Acre, e logo depois demonstrar que esse personagem é invenção minha. Não quero processar nem meter-me em pleitos jurídicos, mas gostaria que o meu livro fosse publicado no Brasil para que todos pudessem ver de onde se originou. Encantaria-me que se pudesse fazer um filme sobre Galvez, no Acre e na Espanha. Já houve várias tentativas de Hollywood, segundo acredito e me contou Márcio Souza, para fazer um filme. Dentre eles, está Robert Redford.

Então não pretende mover ação judicial contra a TV Globo por ter usado na minissérie a personagem criada por você?

Não, em princípio. “La Estrella Solitaria”, por ter recebido o Prêmio Ciudad de Salamanca, foi editado por Algaida, que tem os direitos durante uma série de anos e são eles os que, em qualquer caso, deveriam empreender ações judiciais se as acreditam oportunas e com o meu consentimento. Como te dizia, também deveríamos ver a totalidade da série, não apenas o que consegui ver pela internet.

Sendo um conhecedor profundo da história, como você pode definir o Acre?


Obrigado pelo “conhecedor profundo”, não o mereço, ainda que preze conhecer e amar muitas partes da Amazônia. O Acre pode ser definido, parafraseando a Júlio Cortázar, como um estado de ânimo. É uma mostra da inter-relação entre a natureza e o ser humano, como a paisagem pode marcar tanto o caráter das pessoas ou como a ação das pessoas pode mudar a paisagem. O Acre é mágico. O Acre não é apenas a selva, mas todos os que nela habitam e interagem -índios, seringueiros, camponeses, xamãs-, nos damos conta de que a luta por um mundo justo e mais livre é possível. E até necessário, diria eu.

Luciano Martins Costa, jornalista e escritor paulista, diz que o Acre é um estado de espírito.
Mais ou menos o mesmo. O Acre está suspenso entre o céu, a terra e a água, como numa rede, sobre a folhagem da selva. O Acre é poesia, e também dureza. Como a mãe natura.

Após 15 ou 20 anos, mudou de modo signficativo a percepção da sociedade européia em relação à Amazônia?


Eu creio que deve ter mudado muito. A mensagem –se assim se pode dizer- de nossa série documental, era que sem futuro para o ser humano, não haveria futuro para a selva. No Ocidente, ou melhor, na Europa, deixou-se de considerar a Amazônia como o jardim do Éden para pensar nas pessoas que nela habitam e que são os primeiros que têm que preservá-la, com a ajuda de todos, claro está. Se não há consumidores de madeira no Primeiro Mundo, não se saqueiam as florestas. Sim, eu creio que houve mudança. Tudo está conectado e tanto afetam a Amazônia as decisões a nível mundial, como influi na política mundial o que acontecesse na Amazônia. Houve muita esperança com os estados onde governava o partido do presidente Lula, e se fizeram muitas coisas. Mas há que seguir avançando.

Qual o trabalho que você realiza atualmente?

Agora mesmo estou trabalhando em uma novela sobre El Bosco e em uma série documental na África, com músicos e pintores. Acabo de terminar uma novela sobre o bandido norte-americano Billy The Kid e os hispanos. Na primavera, me editam outra novela sobre uma figura histórica e desconhecida da guerra civil espanhola. Não sofro de tédio, me falta tempo.

Grato pela entrevista.

Altino, uma coisa a mais. Tenho um livro que é uma viagem pela Amazônia, “La Serpiente Líquida”. Percorro desde o rio Ucayali, no Peru, até Belém, no Brasil. Uma parte importante do livro se passa no Brasil, desde Boa Vista até Manaus. Foi o último livro que publiquei, uma mistura de viagens, histórias, lendas, xamãs, ritos, enfim, Amazônia em estado puro. Falo de muitos amigos, dentre eles, Joaquim Marinho, de Manaus, um dos mortais que possui em sua coleção um selo da República Independente do Acre.

Fonte: Blog do Altino Machado
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