"Canibalismo Kulina foi uma farsa midiática", diz antropólogo no Acre



Pesquisador do Núcleo de Estudos Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e Caribe, da Universidade Federal de Santa Catarina, o antropólogo Domingos Bueno Silva, 47, conhece bastante a etnia kulina, que ficou mundialmente famosa neste mês, quando quatro indígenas da aldeia Cacau, no município de Envira (AM), foram indiciados pela Polícia Civil acusados de suposta prática de canibalismo.
O antropólogo trabalhou durante dois anos com os kulina, tendo como foco a pesquisa “Música e pessoalidade: Por uma Antropologia da Música entre os Kulina do Alto Purus”. Nascido em Bragança Paulista (SP), Domingos Bueno Silva está no Acre há 10 anos, dos quais cinco como professor visitante na Universidade Federal do Acre, consultor e perito judicial em varias trabalhos.
- O canibalismo kulina foi uma farsa midiática que se orquestrou em torno desse acontecimento duvidoso - afirma o antropólogo sobre o assassinato de um branco pelos kulina na divisa dos estados do Acre e Amazonas.
Quem são os kulina?
Eles pertencem à família linguística arawá. Até a chegada dos brancos, formavam um dos grupos mais numerosos nos estados do Acre e sul do Amazonas. Ele se autodenominam madija (pronuncia-se madirrá), que significa “os que são gente”. Os brancos são tratados genericamente por cariás. Os madija falam predominantemente a língua kulina nas aldeias, inclusive as crianças, sendo quase todos os raros bilíngües do sexo masculino e mais velhos. Geralmente, esses são os que trabalharam na juventude para os patrões brancos nos seringais e na extração de madeira, que têm mais conhecimento da língua portuguesa, embora nas aldeias próximas às cidades a necessidade de estabelecer relações com a sociedade envolvente esteja mudando essa realidade.
Quando você tomou conhecimento da notícia sobre canibalismo envolvendo os kulina? É com satisfação que atendo ao seu convite para dar minha contribuição para elucidar os fatos veiculados nos meios de comunicação do Brasil e da Europa sobre um suposto caso de canibalismo kulina. Particularmente, tomei contato com esse acontecimento quando estava em trânsito no inicio do mês e fui consultado por e-mail por repórteres da revista Época, da rede CNN e também pelo pessoal da Survival International, que tem uma política correta de defesa dos povos indígenas em todo o planeta. Imediatamente respondi à Survival, que veiculou no site dela, no dia 19, em seis idiomas, uma nota conjunta com Donald Pollock e Daniel Everett, onde denunciamos que o canibalismo kulina foi uma farsa midiática que se orquestrou em torno desse acontecimento duvidoso.
Por que duvidoso?
Assuntos ligados a tabus provocam a imaginação das pessoas e induzem ao erro. Esse caso precisa ser esclarecido a partir dos fatos e não baseado em nossos medos ancestrais, movidos por preconceito e desconhecimento do outro. Não posso acreditar na versão de canibalismo ritual no caso do Océlio pelo simples fato de que toda uma cultura com histórico centenário de contato com brancos e vizinhos não poderia, de um momento para o outro, se tornar outra.
Existe ou existiu canibalismo ritual praticado pelos indígenas?
O canibalismo que se conhece nas terras baixas da América Latina, registrado por viajantes desde Cabral, tem um significado ritualístico que extrapola o ato de devorar um ser da mesma espécie. Prisioneiros tupi, por exemplo, aguardavam o momento de sua morte com grande dignidade, sequer pensando em fugir de seus algozes, posto que ficavam em liberdade. Os tupi acreditavam que ao comerem partes de seus inimigos, herdariam sua força e habilidade. Dessa forma, apenas os inimigos fortes e destros nas armas, grandes guerreiros, eram devorados. Em um certo sentido, era uma espécie de honraria.

Mas os kulina nunca praticaram canibalismo ritualístico?
Os kulina, em toda a bibliografia que conheço, nos anos todos em que os estudei, na convivência que tive com eles no Alto Purus, ou na troca de informações com sertanistas experimentados da região, nunca deram qualquer sinal de prática canibalística, principalmente com indivíduos de outra etnia. É por isso que não acredito na forma como esse episódio foi relatado. Provavelmente existem muitas nuances ainda não identificadas em torno dessa questão. Serão elas que explicarão o que realmente aconteceu. Aconteceu um crime. Alguém foi assassinado por alguém. Mais do que isso, nesse momento, é pura especulação.
O que mais o incomodou ao acompanhar o canibalismo da mídia?
As entrevistas dos agentes envolvidos ouvidos pela mídia são recheadas de pérolas preconceituosas do tipo “os índios kulina quando bebem ficam extremamente violentos”, lembrando muito as justificativas das correrias, que afirmavam que os índios comiam criancinhas, eram canibais, preguiçosos, ladrões, enfim, que afirmavam que “índio bom é índio morto”.
Como são os kulinas?
Os kulina que eu conheço, no entanto, são um dos povos da Região Norte mais fortemente ligados às suas tradições, particularmente sua língua, música e praticas xamânicas. São relutantes em manter contato com outras etnias, índios ou não índios, sendo reconhecidos como grandes xamãs pelos vizinhos, além de serem historicamente lembrados como grandes guerreiros, pelo menos até antes do contato com os brancos, quando passaram a trabalhar para os patrões nos seringais.
Algum fato marcante durante os anos de convívio com eles?
Uma das imagens mais marcantes que me recordo do cotidiano da aldeia de Santa Júlia é a de uma índia dando banho em seu filhinho recém nascido. Ela colocava água na boca e borrifava o bebê para abrandar o calor e limpá-lo com um pano. Isso não condiz com uma tribo assassina, canibal. É claro que existe a possibilidade de tal fato ter acontecido, praticado por alguém por motivos ainda não esclarecidos. Mas, nesse caso, teríamos que supor também que os alemães são antropófagos, baseado no episódio daquele homem que praticava canibalismo e chegou a divulgar receitas de fígado humano na internet.
Chama a atenção nesse caso também a versão veiculada pelo delegado da cidade?
Sim. Segundo o delegado, dois kulina seriam testemunhas do crime. Um jovem da aldeia Macapá e um professor da aldeia do Cacau. No entanto, há que se ponderar que todo agrupamento humano é fragmentado. Pessoas unem-se e separam-se por necessidade. Nesse momento, por algum motivo, alguns parecem estar dispostos a sacrificar a própria unidade social para atacar ou delatar outros. Isso não é uma prática comum entre pessoas da mesma etnia de pequenos agrupamentos. Normalmente acontece o contrário: ninguém viu nada. Certamente isso é indício também de alguma inconsistência na história veiculada.
Existem rivalidades no grupo?
As rivalidades inter-étnicas dos kulina são de caráter histórico e prosaico, envolvendo demarcações, fronteiras, direcionamento de recursos governamentais ou qualquer outra coisa, mas quase sempre o grupo atua como um bloco. Essa rivalidade se expressa muito mais em antipatias mútuas, das quais não tenho relato de que chegassem as vias de fato. Os conflitos que existem no Acre, de que tenho notícia, quase sempre envolvem invasão de áreas indígenas por brancos. Isso levanta a questão de que as terras indígenas são para usufruto dos povos historicamente reconhecidos como índios. As reservas possuem riquezas minerais, botânicas, animais, florestais, enfim, riquezas que os vizinhos muitas vezes não tem mais.
E os brancos… A despeito das demarcações, muitos brancos não tem a exata percepção do valor dessas reservas e de sua responsabilidade em auxiliar a preservá-las, posto que são mais que simples glebas de terra de uso exclusivo de determinadas minorias. As opiniões freqüentes são de que as áreas são muito grandes, que os índios são preguiçosos, que não produzem nas terras, como se fossem colonos. Enfim, é um pouco da ideologia rondonista de integração dos índios à cultura brasileira, misturada com puro preconceito. A relação de brancos e índios na floresta mudou? Frequentemente ocorrem problemas com vizinhos que invadem as reservas para tirar madeira, caçar e pescar. Claro que eventualmente esse relacionamento pode ser cordial, o que depende da postura de quem invade a área, podendo ou não gerar tensões. Um seringueiro que caça um animal para se alimentar ou tira madeira para fazer uma casa pequena é muito diferente de alguém que caça ou pesca para vender, ou tira madeira nobre para os madeireiros.
E esse convívio gera mudanças? Sem dúvida alguma esse contato com a sociedade do entorno e com a forma de vida dos brancos provoca profundas mudanças na vida desses povos da floresta, que não estavam preparados para o vírus da gripe dos conquistadores, bem como para o dinheiro e as facilidades tecnológicas. Somos homo sapiens. Não há diferença biológica alguma entre índios e brancos. A diferença está na cultura…
O dinheiro é sempre fator de crise?
Quando você injeta recursos financeiros numa sociedade sem recursos e com um sistema de reciprocidade horizontal, sem fortes estruturas hierárquicas, a tendência é desorganizar esse sistema de reciprocidades, criando novas referências no grupo. Um indivíduo jovem, que, em situações normais, teria pouca influência decisória no grupo, poderia se transformar, da noite para o dia, no “dono do motor” ou no “dono casa de farinha”, com recursos materiais totalmente incompatíveis com o restante do grupo. Isso já aconteceu com outras sociedades que tem minério, sobretudo ouro, diamantes ou madeira em suas áreas. Apenas o tempo dirá o quão danosa essas novas categorias serão para os kulina e outros grupos étnicos amazônicos.
Os índios seguirão tutelados?
Embora os índios brasileiros sejam legalmente tutelados, isso não significa que não podem ou devem responder à lei. Existem vários juristas que se debruçam sobre essa questão. A tutela estatal existe basicamente para protegê-los contra interesses espúrios da sociedade não índia. Nesse sentido, acredito que a Funai deva esclarecer os fatos. Às vezes não é fácil posicionar-se, até mesmo porque podem existir parentes envolvidos, mas nesse caso, isso é imprescindível, por causa da repercussão internacional e nacional alcançada. E eu particularmente me interesso muito por ele.
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