Religioso alemão que escapou do regime nazista vive no Acre


A voz mansa e serena seduz a qualquer um. Aos 84 anos — completados em novembro de 2008 — ele mantém o carisma e o costume de distribuir chocolates aos visitantes. Assim é o bispo dom Ludwig Herbst, ou simplesmente Dom Luís, como é carinhosamente chamado em Cruzeiro do Sul, no Acre, onde vive há 55 anos. Do porto do Rio de Janeiro, onde desembarcou escondido na terceira classe de um navio, o recém-ordenado padre Ludwig — que fugia do Nazismo de Adolf Hitler — levou vários dias, a bordo de um velho avião da Força Aérea Brasileira, para colocar os pés em Cruzeiro do Sul.
Antes chegar ao Vale do Juruá — a região mais ocidental do Brasil — com seus 28 anos de idade, d. Luís fez história fez parte da história de seu país natal, a Alemanha. Nascido em Bardenberg, hoje Aachen, o menino Ludwig sonhava com a vida religiosa desde a tenra idade. Aos 12 anos ingressou no Seminário Menor dos Espiritanos, em Broichweiden, perto de sua casa, e depois por Kneschtsteden e Donaueschiningen. Mas a vida religiosa dele é abruptamente interrompida quando chegava aos 19 anos.
Era 1943. Seu país estava em plena II Guerra Mundial. É nesse cenário caótico que o jovem Ludwig Herbst, filho de um trabalhador das minas de carvão e de uma costureira, larga o seminário para servir às forças do ditador Adolf Hitler. E, por um milagre, não é mais uma vítima da própria guerra.
O ingresso dele nas forças alemãs se deu por pressão do vigoroso movimento jovem nazista. Optou pela Força Aérea em vez da Marinha, como sempre lhe recomendava sua mãe, Alexandrina. Ficou ali até o final da Guerra, em 1945. A sua estréia em campo de batalha por pouco não lhe tira a vida. Ao enfrentar as forças inimigas, Ludwig levou um tirou da cabeça. Era final de janeiro de 1945 — a guerra é encerrada oficialmente no dia 2 de setembro daquele mesmo ano.
Retorno ao seminário
Com o fim da guerra, o jovem Ludwig (ou Luís) pôde retornar ao seminário. Em setembro de 1946, um ano após o fim da batalha e com a Alemanha derrotada, faz sua primeira profissão de fé em Menden, Sauerland. Depois de cinco anos de estudos é ordenado padre na cidade de Kneschtsteden pelo então bispo-auxiliar de Colônia, d. Wilhelm Stockums.
Um ano depois, em 1952, o recém ordenado padre Luís deixa a Alemanha, embarca em um navio e cruza o Estreito de Gibraltar — uma separação natural entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, e entre o continente europeu e africano — com destino ao Brasil. Antes de desembarcar em solo brasileiro, Luís fez uma parada no Norte da África, onde sua congregação (os Espiritanos) deixou alguns missionários.
Chegando ao Brasil, o padre Luís Herbst é mandado direto para Amazônia. Seu destino é Cruzeiro do Sul, no Acre, onde passa a atuar ao lado do também padre alemão Henrique Rüth como missionário no vilarejo de Porto Walter, hoje município. Atuou como missionários entre 1953 e 1967, quando se torna vigário-geral da Prelazia do Alto Juruá. Doze anos mais tarde é nomeado bispo coadjutor de Cruzeiro do Sul e, em 1980, com o lema “Veritas liberabit vos” — A verdade vos libertará (Jo 8,32) —, padre Luís Herbst é ordenado bispo da cidade que escolheu para viver e propagar o Evangelho.
Jornais alemães
Depois de meio século de trabalho dedicado aos pobres do Juruá, d. Ludwig (ou simplesmente Luís como os fiéis preferem) teve que se aposentar aos atingir 75 anos (é a idade limite imposta pelo Vaticano). Mesmo assim, ele não saiu da cidade. Permaneceu em Cruzeiro do Sul, onde, todo o domingo celebrava a Missa na Catedral Diocesana Nossa Senhora da Glória. A construção é em estilo germânico, com forma octogonal e no seu interior possui um painel representado por Nossa Senhora da Glória.
Agora, d. Luís Herbst não celebra mais na Catedral. A saúde não lhe permite caminhadas longas. Ele tem cinco pontes de safenas e problemas cardíacos, sua pressão arterial oscila bastante, e ainda sofre de diabetes. Mesmo nessas condições, d. Luís recebe seus visitantes — seja conhecidos ou desconhecidos — com um sorriso largo no rosto e o bom humor que lhe é peculiar. Aos poucos, o religioso seduz com que dialoga. Conta suas histórias de vida no Juruá e, em determinados momentos, deixa transparecer que se sente muito sozinho.
O bispo vive em uma casa caprichosa construída pelas irmãs franciscanas nos fundo do Seminário Menor Diocesano de Cruzeiro do Sul. Com bastante verde, a área é bonita e bem cuidada, o que deixa d. Luís bem à vontade para receber seus convidados. Sentado numa cadeira ao lado de uma exuberante samambaia, sempre a sós, o bispo costuma revirar diariamente os jornais da Alemanha — em língua local para, segundo ele, “não perder o vínculo com sua terra”. As edições são trazidas pelo amigo, o padre alemão Eriberto, com quem conversa bastante sobre diversos assuntos, e, principalmente, os religiosos.
“A morte é um conforto”
D. Luís Herbst, que adotou a Amazônia como sua terra, vive atualmente sob os cuidados especiais de médicos e da irmã franciscana Maria da Paz, uma senhora bastante educada e que, religiosamente, sempre se apresenta com vestimentas bem engomadas em tom cinza leve.
Abatido pela idade e as doenças, o bispo, apesar dos esforços, tem dificuldades para recordar o passado. Ele sofre de esquecimentos espontâneos. Confessa, por exemplo, que a memória é hoje sua maior inimiga, e reconhece que “deu trabalho para os médicos e as freiras” quando caiu há poucos dias e lesionou a cabeça.
Para o bispo, essas situações são traduzidas como momentos de felicidade e afirma estar “preparado para a morte”. “Deixa ela [morte] vir, não chame ninguém irmã, nem os médicos”, falou Luiz para a irmã Maria da Paz. “Dom Luiz, diz que a morte será seu conforto, já que o céu é um paraíso”, conta a irmã comentando sobre a solidão dele.
“Melhor lugar para morar”
Com o agravamento dos problemas de saúde, d. Luís Herbst afastou das atividades religiosas oficiais da Igreja e escolheu o Acre para descansar. Para ele, o Acre é “o melhor lugar do mundo para morar”. Confessa que “não sente falta da confusão que é Rio Branco, o barulho, a agitação incomoda”. Mas tem uma paixão reveladora por Cruzeiro do Sul. Nas idas e vindas ao encontro de sua irmã (mais nova e solteira) que mora em Colônia, na Alemanha, ele diz que sempre retorna o mais rápido que possível para o Acre. Sua última visita a terra natal foi há cerca de dois anos.
Em dezembro, d. Luís foi informado pelo padre Frederico durante uma ligação telefônica da Alemanha que sua irmã estava doente e se recuperando em hospitais. O bispo comentou que na região da única integrante de sua família havia um frio muito forte.
Sem celebrar, ele acompanha apenas os outros religiosos nas missas da paróquia Nossa Senhora Aparecida, que é próxima de sua casa. Antes, era tradição ir à missa (e celebrar) de domingo na Igreja do bairro Copacabana. Recentemente, devido às dificuldades para leitura, d. Luís foi recomendado a deixar de celebrar — ofício que ele exercia com esmero.
“Ele [bispo dom Luís] era um encantador do povo com suas palavras. Com o Evangelho, ele emocionava a multidão e tinha prazer de evangelizar. Sempre foi sua maior paixão, sua maior alegria. Suas pregações cativam de mais, são do coração, com entusiasmo”, conta irmã Maria da Paz.
Religiosos fizeram a história do Vale do Juruá
RIO BRANCO — A presença de religiosos alemães e franceses faz parte e até se confunde com a história dos municípios do Vale do Juruá, particularmente de Cruzeiro do Sul. É naquele fim de mundo, com faz questão de destacar o site da Diocese de Cruzeiro do Sul, que uma legião de padres e freiras aportou no início do século XX. Com a ajuda das pessoas, e das doações enviadas da Alemanha, esses religiosos fizeram — e continuam fazendo — a história de uma das regiões mais pobres e também mais isoladas do Brasil. Em pleno século XXI, Cruzeiro sequer tem ligação terrestre com Rio Branco, a capital do Acre, distante dali 648 quilômetros.
“A contribuição de religiosos alemães e brasileiros, através da Congregação do Espírito Santo e Irmãos Dominicanos no Juruá, tem sido de fundamental importância para a organização e desenvolvimento sócio-educacional da comunidade local”, conta o jornalista Francisco Costa, em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Curso de Jornalismo no Instituto de Ensino Superior do Acre (Iesacre), de Rio Branco (AC).
Costa afirma, por exemplo, que a atuação desses religiosos foi centrada em atividades missionárias, educacionais e de assistência médica. Diz também que os religiosos têm um permanente envolvimento em atividades gerais de orientação comunitárias, “fazendo com que a influência de seu trabalho, em diferentes setores técnicos, estivesse bem presente na vida das famílias e das instituições daquela região, em especial, da comunidade de Cruzeiro do Sul”.
A Prelazia de Juruá foi criada no dia 22 de maio de 1931 por meio da Bula Munus regendi, do Papa Pio XI, com o desmembramento da então Prefeitura Apostólica de Tefé. Desde então foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Congregação do Espírito Santo. Em 1987, no pontificado de João Paulo II, a Prelazia foi elevada a Diocese, passando a denominar-se Diocese de Cruzeiro do Sul desde o dia 25 de junho daquele ano. Sua finalidade principal: a promoção espiritual, moral e social do povo da circunscrição eclesiástica.
O trabalho dos religiosos cresceu bastante. Atualmente, a Diocese de Cruzeiro do Sul possui seminários, colégios, escolas de formação, casas de recuperação e uma forte atuação na área de comunicação. Possui uma emissora de rádio, de televisão e um moderno site na internet.
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